Ano I - Número 1
   Junho / Julho de 2001
 
 

        Nelson Nefussi

"Não sou ecologista radical."

     Nelson Nefussi é uma personalidade na área de controle ambiental. São 38 anos de atividades, principalmente como homem público e como consultor de empresas.
     Do alto de sua experiência mantém uma postura absolutamente independente e por vezes se diz criticado pelo segmento de consultoria, que surgiu nas últimas duas décadas com o advento dos EIAS/RIMAS e da Certificação Ambiental.
     Com uma autonomia de vôo suficiente, Nelson Nefussi vive da questão ambiental mas afirma que nunca viu o meio ambiente como negócio. Formado
em engenharia química, sanitária e de segurança, mestre em ciências da Higiene, Nefussi vê na questão ambiental o homem como centro das ações. Se for preciso escolher entre uma ação em prol do meio ambiente ou em prol da saúde pública ele faz clara opção pela segunda. “Não sou ecologista radical.” Nefussi recebeu Ambiente Legal para uma conversa em sua casa que também é o seu escritório, repleto de discos de vinil e milhares de fitas de vídeo, suas paixões confessas. A seguir trechos dessa instigante conversa.

Ambiente Legal - Como você analisa o controle ambiental nos dias de hoje?

Nelson Nefussi - Desde os primórdios do controle ambiental na Região Metropolitana no ano de 1963 muita coisa mudou. No final da década de setenta quando a CETESB desenvolveu a “Operação Fumaça Branca” de controle da poluição industrial eu tinha um exército de 500 engenheiros de controle da poluição na rua. Isso hoje já não é possível.

AL - Explique o que foi essa mudança.

Nefussi - Hoje existe a Lei dos Crimes Ambientais, o Ministério Público, as Normas de Certificação Ambiental, ou seja a pureza do movimento ambiental transformou-se em um grande mercado de negócios.

AL - Isso é ruim? Você parece não concordar com muita coisa, não é? Explique.

Nefussi - Não se trata de ser contra ou a favor. É uma constatação. Devido a minha formação eu encaro os assuntos de poluição como de saúde pública. Eu vejo o homem no centro do tema ambiental. Mal dizendo eu quero deixar claro que, por exemplo, agora, diante dessa crise energética eu como agente público tenho que fazer de todo o possível para viabilizar a implantação de uma Usina Termoeléctrica, em prol do ser humano, mesmo que isso custe algum impacto ambiental . Eu não sou ecologista radical.

AL - Mas frente a esse cenário de negócios ambientais como você mencionou, o que resta ao poder público fazer?

Nefussi - Resta muito. Eu acho que cada um deve cumprir o seu papel. No caso de São Paulo, uma instituição como a CETESB deve agir nos casos graves. É preciso que ocorra a descentralização. Não é racional que a CETESB fique fiscalizando todos os postos de gasolina. Isso é papel das prefeituras e seus órgãos de meio ambiente. A CETESB deveria ser um órgão enxuto, com uma equipe SWAT de controle. É preciso aliviar a CETESB.

AL - E as indústrias? Elas já estão controladas?

Nefussi - Além da descentralização no controle ambiental eu vejo que em breve um movimento empresarial deve ocorrer. É o do auto controle ambiental. Ou seja, com a crise, as empresas vão procurar fazer o controle ambiental compatível com o tamanho do seu negócio.

AL - Um tema que está ganhando proporções é o dos resíduos industriais, problema ao que parece ainda não resolvido?

Nefussi - Sim, é um problema que deve ser enfrentado. Tecnologias para dispor, minimizar e tratar existem. Mas eu também vejo outros temas adjacentes ganharem dimensão como o dos tais “passivos ambientais” e os “riscos ambientais”. Tudo bem, mas isso tudo precisa ser tudo muito bem discutido. A noção de risco, de dano ambiental, de crime ambiental devem ser profundamente entendidas para que as ações sejam coerentes e adequadas. Cada caso é um caso. A Rhodia de Cubatão, por exemplo, pegou o resíduo e foi depositar o lixo tóxico fora de seus limites, em outro município. Isso é crime.

AL - Você citou a questão da crise energética e os embates ambientais, você quer dizer então que...

Nefussi - O que eu quero dizer é que uma supervalorização dos valores ecológicos levará a entraves insuperáveis à expansão do setor energético, cujas conseqüências serão catastróficas para a população brasileira. Eu tenho uma opinião muito clara de que o progresso tecnológico, na realidade, ele não destroi a natureza, apenas a transforma, cabendo à civilização orientar essas transformações no sentido de evitar situações insustentáveis para o próprio homem. Não se deve confundir a noção de “dano do sistema” com a de “modificação do sistema”. Para o primeiro existem tecnologias para minimizar esse impacto.

 

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