Ano I - Número 4 - Dez 2001
   Janeiro / Fevereiro de 2002
 

O clima já pode melhorar

O Protocolo de Kyoto e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo já estão em condições de serem ratificados pelos países que assinaram o documento. Na ONU, o Presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que vai encaminhar o Protocolo ao Congresso Nacional para sua transformação em Lei.

     Finalmente, desde novembro último, após quatro anos de intensas negociações, o Protocolo de Kyoto, destinado a promover a redução das emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa, está em plena condição de ser aplicado pelos paí-ses signatários.

     Os resultados para o Brasil são os mais auspiciosos. Segundo Ronaldo Mota Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia que chefiou a delegação do Brasil à VII Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para a Mudança Climática, “os objetivos do Brasil foram plenamente alcançados”. Em artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo, com o título “De Kyoto a Marrakesh – uma longa jornada”, em 16 de novembro passado, o ministro ressalta que prevaleceu “o entendimento de que a mudança do clima é global e representa um desafio às lideranças mundiais”. Para ele está claro que “a comunidade internacional é forçada a encarar a realidade: só há uma forma de evitar ou reduzir ao mínimo esses efeitos (aquecimento mundial da atmosfera), que é a limitação das emissões”. E, para isso, é necessário que ocorra uma mudança na forma de geração de energia, bem como nos meios de transporte e nas práticas agrícolas.

“A escolha de Luis Gylvan Meira Filho para representar a América Latina e o Caribe na ONU foi uma vitória brasileira.” - do Relatório do CEBDS.
       Parte da delegação brasileira foi composta pela representação do CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável que, por intermédio da Câmara de Mudanças Climáticas, também avaliou como extremamente positivo o resultado da reunião de Marrakesh. Em princípio, a chamada COP-7 tinha como objetivo dar um formato jurídico adequado às decisões de implementação do Protocolo de Kyoto, mas avançou e tomou algumas decisões importantes e de especial proveito para os empresários brasileiros interessados em desenvolver projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e em comercializar as novas comodities ambientais.

     Em um relatório que sintetiza os resultados da Conferência das Partes para a Negociação da Convenção das Mudanças Climáticas e do Protocolo de Kyoto, Paulo Henrique Cardoso e Laura Tetti, da Câmara de Mudanças Climáticas do CEBDS, revelam que a escolha do presidente da Agência Espacial Brasileira, Luis Gylvan Meira Filho, para representar a América Latina e o Caribe no Comitê Executivo da ONU responsável pela gestão e implantação de Projetos de MDL foi uma grande vitória do Brasil. Essa escolha facilitará a participação de empresas brasileiras que desejarem atuar neste novo mercado de negócios ambientais.

     O relatório do CEBDS também aponta outras decisões importantes tomadas em Marrakesh. Entre elas, está a de permitir que países que não tenham ratificado o protocolo possam participar do comércio de emissões. Também foram definidas as unidades de contabilidade para efeitos de cálculos e comercialização, bem como ficaram estabelecidas as obrigações para os países que devem fazer reduções nas emissões, no primeiro período do Protocolo (2008-2012). E, para que o Protocolo efetivamente seja cumprido, a Conferência também adotou o Regime de Cumprimento do Protocolo, que define conseqüências para os países que não cumprirem as metas estabelecidas. Para tanto, será constituído um comitê de cumprimento, que terá duas linhas de atuação: uma como agente facilitador e outra com funções coercitivas.

     A “Declaração de Marrakesh” será encaminhada à reunião da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, que popularmente está sendo chamada de “Rio + 10”, a ser realizada em setembro próximo, em Joanesburgo, na África do Sul. Para o Ministro Sardenberg, o Protocolo de Kyoto comprova, neste particular, o êxito da Conferência do Rio, realizada em 1992.

O Comitê
     Gylvan Meira Filho, representará, como titular, durante os próximos três anos,
a América Latina e o Caribe, no Comitê Executivo da ONU para gestão do MDL,
o Chile será representante substituto. Também foram eleitas as representações do Continente Africano (África do Sul, titular e Senegal, substituto);
Ásia
(Irã e Malásia, respectivamente titular e substituto); Europa Ocidental (França e Suíça), EUA e Canadá; Pequenos Países Insulares (Antígua e Barbuda e Samoa);
Países não pertencentes ao Anexo I
e que não têm compromissos de redução fixados (Costa Rica e Arábia Saudita, para um mandato de dois anos e Marrocos e China para mais dois anos); Países do Anexo I, com compromissos de redução fixados (Japão e Canadá, com um mandato de três anos e Dinamarca e Noruega para mais dois anos de mandato).

Doha, Catar

     Quase que paralelamente também ocorreu a reunião da OMC - Organização Mundial do Comércio, onde o Brasil também teve atuação destacada, com resultados auspiciosos, principalmente para a área da saúde. Porém, a representação brasileira do Greenpeace, organização não governamental ambientalista, acusou a delegação brasileira de negligenciar a questão ambiental. Para Marijane Lisboa, do Greenpeace, o Brasil, EUA e outros países se recusam a aceitar acordos ambientais internacionais, inclusive os ratificados, que se sobreponham às regras da OMC.
     Para a ambientalista esta é uma posição esquizofrênica do País, pois em Convenções Ambientais aceita, por exemplo, o princípio da precaução – princípio que concede aos governos o direito de assumirem medidas de prevenção a produtos e processos que podem trazer danos ao meio ambiente – mas nega este mesmo princípio no fórum da OMC, alegando que os países membros podem adotar posturas restritivas aos produtos brasileiros, praticando assim políticas protecionistas.
     Mas, de resto, a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso na França, cujo discurso teve repercussão das mais expressivas na mídia internacional, bem como seu discurso na ONU e mais estas vitórias em DOHA, na OMC e em Marrakesh, na Convenção do Clima, demonstram que o País cada vez mais está assumindo um papel de relevância na geopolítica internacional. Isso é muito importante no contexto de crise planetária, no início de um novo milênio que se afigura como um tempo em que enormes desafios devem ser enfrentados, bem como novos modelos para a vida no Planeta Terra devem ser encontrados.

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