Ano II - Número 6
   Junho a Agosto de 2002
 

Resíduos de Serviços de Saúde,
um problema ambiental.

     A coleta, destino final e tratamento de resíduos ainda ressentem-se da falta de uma legislação ambiental abrangente que as discipline. Este é, sem dúvida, um dos motivos que transformaram o lixo em um dos grandes problemas ambientais dos municípios brasileiros. E, por isso também, há uma grande expectativa em relação ao Projeto de Lei da Política Nacional de Resíduos, em tramitação no Congresso Nacional.

     Dentre os diversos tipos de resíduos, um que traz grandes preocupações é o RSS – Resíduo de Serviços de Saúde. O ambientalista Paulo Rodrigues, que dedica especial atenção ao assunto, revela que, em cidades da Região Metropolitana de São Paulo, não é raro encontrar resíduos hospitalares jogados em lixões a céu aberto. O que imaginar de outras regiões do País?

     

Paulo Rodrigues relaciona, como uma das causas que explicam o problema, a falta de fiscalização no trajeto do resíduo entre a fonte geradora e a unidade de destino final. Muitas vezes, o lixo é levado para depósitos a céu aberto, sem qualquer controle ambiental, embora o transportador cobre por um suposto serviço de tratamento e destino final adequados. Isso, na avaliação do ambientalista, decorre do fato de os departamentos de compras contratarem serviços “pelo menor preço”, não observando os aspectos técnicos e de saúde pública envolvidos na questão.

     O militante ambientalista também não isenta de culpa os chamados “grandes geradores” de resíduos, grandes hospitais, clínicas e laboratórios, que relutam em investir na implantação de Sistemas de Gestão Ambiental capazes de separar o lixo infectado do lixo comum. Isso ocorre porque o empresário não é compelido pelo poder público a tomar estas providências, o que torna cômoda a situação do gerador de resíduos, que, ao colocar porta afora o seu lixo, fica livre do problema e, sem pagar nada por isso, o repassa para o Poder Público resolver.

     O advogado Antonio Fernando Pinheiro Pedro afirma não ser por falta de legislação que o assunto não anda bem em nosso País. Afinal, a Constituição Federal, no capítulo dedicado ao Meio Ambiente, a Lei 6.938/81 – Lei de Política Nacional de Meio Ambiente, a Portaria Minter n.º 53, de 1º de março de 1979, bem como a Resolução 5 do Conama, de agosto de 1993, conferem arcabouço legal bastante grande, destinado a obrigar os estabelecimentos hospitalares a segregar, acondicionar e dar destino final adequado aos chamados RSS. Ele constata, porém, que apesar disso tudo os RSS continuam sendo motivo de grande “inquietação pública”.

     Na sua avaliação, o problema está na excessiva centralização do assunto nas mãos do poder público. Para ele, os grandes geradores de resíduos podem e devem implantar e operar sistemas próprios de descontaminação e destino final de resíduos. O que está faltando é a efetiva implementação das normas já disponíveis e sua sustentação econômica. Pinheiro Pedro considera necessário que o poder público exerça suas funções fiscalizatórias, mas também que estimule e incentive o financiamento para implantação de sistemas de tratamento.

     O advogado lembra que esta linha de pensamento está em consonância com a moderna tendência mundial, que desonera ao máximo a administração pública, transferindo o ônus do gerenciamento aos geradores dos resíduos, em obediência ao princípio geral do “poluidor pagador”.

     Edson Rodriguez, diretor Comercial da Silcon Ambiental Ltda., empresa especializada em tratamento de resíduos de saúde, destaca que tecnologia já não é mais obstáculo para enfrentar o problema. Sua empresa, por exemplo, dispõe de Plataformas de Tratamento de Resíduos em dois municípios no Estado de São Paulo, que adotam as tecnologias de incineração e esterilização através de um autoclave (promove a esterilização dos resíduos com o aquecimento de uma câmara hermeticamente fechada).

     Edson Rodriguez considera o Estado de São Paulo como aquele em que a questão está mais avançada em relação ao restante do País. Ele dá exemplos: em alguns municípios da Grande São Paulo, Baixada Santista e Campinas, os resíduos são conduzidos para sistemas adequados de tratamento. Por sua vez, Ribeirão Preto está no início dos procedimentos necessários e Rio Preto e Bauru, que deram início, respectivamente, aos processos de licitação e licenciamento do serviço, são alguns exemplos positivos. Mas existem situações como em Sorocaba, apenas para citar um município, que dispõe os seus RSS em aterro sanitário, o que está longe de ser adequado.

     O Município de São Paulo, segundo o diretor da Silcon Ambiental, está caminhando para a resolução dos problemas. Ele lembra que recentemente o Incinerador Vergueiro foi desativado e que a Unidade de Tratamento por Microondas, instalada na região Oeste da cidade, não tem capacidade técnica para dar conta de determinados tipos de resíduos de saúde. Por isso, a Prefeitura iniciou procedimento para contratação de sistemas adequados de tratamento de resíduos provenientes da indústria de medicamentos, e outro para os resíduos das zoonoses. Com isso, o circuito técnico para tratamento de resíduos de serviços de saúde no Município de São Paulo estará a caminho de ser bem resolvido.

     Ele ressalva, porém, que é preciso caminhar para o “refinamento” do estágio atual. É preciso incentivar a implantação de Programas de Gestão Interna de Resíduos nos hospitais, laboratórios e outras grandes unidades de serviços de saúde. Para isso é necessária ação mais efetiva do poder público (meio ambiente e saúde) junto aos grandes geradores. Na medida que estes façam a segregação dos resíduos contaminantes, promovendo a coleta seletiva, haverá uma sensível diminuição na quantidade de resíduos infectados para tratamento, o que é um passo extraordinário para resolver o problema.

     Edson Rodriguez constata, preocupado, a situação do resto do País. Ele traz informação alarmante: não existe tratamento adequado de resíduos hospitalares em capitais como Rio de Janeiro, Florianópolis e Curitiba. Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, os pequenos incineradores existentes estão sendo desativados porque são inadequados. Em Brasília, onde existia um incinerador que está sendo desativado, será realizada licitação para contratar novo sistema de tratamento. Em Minas Gerais, outro Estado onde as coisas começam a andar bem, existem unidades hospitalares que estão obtendo certificação ambiental. Antonio Fernando Pinheiro Pedro defende que a correta destinação do lixo hospitalar deve integrar todo e qualquer programa de qualidade gerencial do setor, não podendo limitar-se à segregação e ao descarte rotineiro, nominal, sem um efetivo comprometimento da unidade geradora com o processamento e destino final dos resíduos. Ou seja, é preciso mudar a mentalidade dos empresários, o que significa que há um longo caminho a percorrer.

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Um exemplo a seguir

     Aquela premissa ambiental de fazer bem feito logo da primeira vez parece nortear as ações institucionais na área ambiental do laboratório de análises clínicas DA – Diagnósticos da América, que compreende as marcas Delboni-Auriemo e Lavoisier, em São Paulo, e Bronstein e Lâmina, no Rio de Janeiro. Sem alarde, o laboratório está avançando na busca de soluções técnicas para a coleta, tratamento e destino final de seus resíduos infectantes. Responsável pelo processamento de alguns milhares de exames diariamente, resultantes das mais de 40 unidades espalhadas pelo Estado de São Paulo, o Laboratório está promovendo o “refinamento” de seu Sistema de Gestão dos Resíduos.

     Em breve estará fazendo a coleta seletiva dos resíduos, tanto na plataforma de serviços de análises laboratoriais, quanto em toda área administrativa da empresa situada em Alphaville, no município de Barueri, na Grande São Paulo, e nas unidades de captação de amostras espalhadas pelo Estado.

     Edivaldo Elias Rotondaro, biólogo pela UniABC, pós-graduado em Controle da Poluição Ambiental pela FAAP e “mestrando” em tecnologia ambiental pelo IPT, destaca um dos aspectos que considera como principal nesse trabalho: a conscientização dos funcionários da empresa para que estes promovam a segregação adequada dos resíduos. Ele diz também que, como a alta direção da empresa possui “boa visão ambiental” e apoia suas iniciativas, vem obtendo sucesso na implantação do programa de gestão ambiental dos resíduos do laboratório.

     Na opinião de Edivaldo Rotondaro, a segregação dos resíduos - que será efetivada em breve na unidade central de análises clínicas da DA Diagnósticos da América - será o grande passo para o aprimoramento da gestão ambiental do laboratório. Isso e a reciclagem são as saídas, pois vão minimizar o volume de resíduos hoje coletados e tratados como resíduos contaminantes e que, na verdade, são resíduos comuns, que podem ser destinados para a coleta seletiva: papel, papelão, plásticos, alumínio, entre outros. Além disso, haverá ganhos econômicos, pondera o gestor ambiental. Ele explica que hoje o total de resíduos coletados diariamente no laboratório monta a uma tonelada, sendo 680 litros destinados para o pré-tratamento por esterilização na unidade de Autoclave, como resíduos infectantes. Com a segregação, a quantidade de resíduos para tratamento certamente vai diminuir muito, gerando economia na energia consumida pela unidade de esterilização. Papel, plástico e papelão poderão ser encaminhados para unidades de reciclagem ou para projetos filantrópicos voltados para comunidades carentes, lembra Edivaldo, apontando outras vantagens comparativas para o projeto que desenvolve.

     O biólogo responsável pela gestão ambiental do laboratório explica que, no caso dos resíduos de serviços de saúde, historicamente ocorreu um excesso de zelo na sua conceituação. Por segurança extremada, os hospitais e serviços de saúde em geral passaram a destinar, para tratamento como contaminantes, resíduos que não tiveram qualquer contato com material contaminado. É de se ponderar que esta postura um tanto negligente dos geradores de um modo geral se deve ao fato de as prefeituras não cobrarem pela coleta e destino final dos resíduos infectantes. Desse modo, não importa se o que está sendo destinado é um quilo ou 200. Mas o fato é que, ao juntar resíduos infectantes com outros que não o são, promove-se a multiplicação do resíduo infectado e aumentam-se os potenciais problemas ambientais e os custos para coleta, tratamento e disposição final dos resíduos. É de se pensar nisso, principalmente porque o Brasil é um país com enormes dificuldades sociais, econômicas e ambientais.

     Por fim, Edivaldo Rotondaro observa que, para que o assunto seja melhor equacionado no Brasil, é necessário que seja feita a edição de uma legislação única que não tenha necessidade de ser referenciada a outras legislações ou normas técnicas. Isso, na sua opinião, atrapalha e confunde.

     Para Marcelo Viecili, diretor técnico da Diagnósticos da América, “fornecer diagnósticos que cada vez mais demonstrem o status da saúde de nossos clientes, com ações que estão focadas para o bem estar social, é o enfoque filosófico da nossa empresa. Acreditamos que o desenvolvimento nesta área é estratégico para o reconhecimento de pioneirismo e liderança”.

      Na área ambiental, Viecili faz questão de mencionar duas conquistas: a adesão dos colaboradores internos e o interesse despertado pelo Programa de Gestão Ambiental dos Resíduos da Diagnósticos da América em outras empresas de saúde. E diz que o trabalho não para por aí. Conta que está em andamento um projeto piloto chamado “Tijolo Reciclável”, que consiste na trituração e compactação do lixo, misturado com concreto e resinas impermeabilizantes, para utilização em contrapisos, por exemplo. Antes que alguém desavisado fique assustado com a possibilidade da utilização de resíduos contaminantes na construção civil, Viecili explica que não há risco nenhum, porque as resinas impermeabilizantes encapsulam o resíduo, neutralizando seus efeitos contaminantes.

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