Ano II - Número 7
   Setembro a Novembro de 2002
 

Depois da Rio + 10

     As opiniões sobre os resultados alcançados pela Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10, realizada em Johannesburgo, na África do Sul, entre os dias 26 de agosto e 4 de setembro, dependem muito de quem faz a avaliação.

E, embora, seja nítido que os avanços foram bastante tímidos e aquém das expectativas dos mais pessimistas, também é notório que o Brasil cumpriu papel significativo como interlocutor ativo da agenda ambiental do Planeta, em especial porque, nos últimos dez anos, tem promovido avanços institucionais e legais no âmbito ambiental, enfrentando situações incômodas que, anteriormente, o apontavam como vilão predador do patrimônio ambiental amazônico, por exemplo. Mais ainda, em Johannesburgo acabou destacando-se ao apresentar proposta de alteração da matriz energética mundial, mudança essa que permitiria adotar, até o ano de 2010, fontes de energia alternativas e renováveis na matriz energética de todos os países, em percentual equivalente a 10%.

“Ambiente Legal” teve a oportunidade de cobrir alguns dos muitos eventos realizados após a Rio+10 e destinados a trazer ao público brasileiro a avaliação daqueles que participaram da delegação brasileira na África do Sul. Um resumo desta cobertura é oferecido ao leitor, para que tenha melhor juízo sobre os resultados do primeiro grande evento do Século XXI, realizado com o objetivo de discutir os destinos ambientais do Planeta Terra e dos seus habitantes.

Energia Renovável
Um dos assuntos que ocupou bastante espaço na mídia brasileira, durante a Cúpula da Terra, foi a proposta brasileira de alteração da matriz energética mundial, que propunha a adoção de 10% de fontes alternativas e limpas, até o ano de 2010. Proposta simples e atraente, elaborada e defendida pelo professor José Goldemberg, Secretário de Estado do Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo e autoridade respeitada no assunto.

O Prof. Goldemberg lamenta que tal proposta brasileira não tenha sido aprovada, pois ela traria conseqüências positivas para as mudanças climáticas, com redução nas emissões de poluentes com compostos de carbono. Uma contribuição efetiva, portanto, para a implementação do Protocolo de Quioto. Contudo, salienta que a resolução extraída ao final de inúmeras reuniões reconhece a importância e a urgência da adoção de energias renováveis em todo planeta, além de considerar legítimo que blocos regionais de países adotem metas e prazos para implementação dessas medidas. Otimista, o professor considera bastante positivo também que os progressos na implementação de fontes de energias renováveis sejam analisados periodicamente pelas Nações Unidas. Em palestra no 1º Congresso de Direito Ambiental do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, no dia 10 de setembro, Goldemberg informou que o primeiro destes momentos acontecerá já no próximo ano, quando será realizada a Conferência de Cúpula sobre Estratégias Globais de Energias Renováveis, anunciada pelo chanceler alemão Gerhard Schröder, onde o “senso de urgência” que a Rio + 10 suscitou para o uso de fontes renováveis na matriz energética mundial deverá marcar as discussões.

Outro fator que impulsiona a demanda pelas energias alternativas é o próprio momento que estamos vivendo. Atualmente, apenas 1% da demanda mundial de energia é suprida por fontes renováveis e limpas, exceto a energia hidrelétrica. Os combustíveis fósseis respondem por 85% da demanda. As energias eólica e solar ainda são mais caras que os combustíveis fósseis. Porém, segundo diagnósticos precisos, as reservas comprovadas de petróleo, gás natural e carvão têm seus dias contados. Talvez este seja um dos motivos para as companhias petrolíferas estarem tão ansiosas quanto os ambientalistas para encontrar alternativas que atendam à demanda energética deste século. As previsões indicam que o Planeta estará consumindo, até o ano de 2050, pelo menos, 15 vezes mais energia do que consumia no ano de 1950. Boa parte dessa energia estará sendo consumida pelos chamados países em desenvolvimento, que têm aí a chance de promover o seu desenvolvimento de maneira diversa da atual. Aliás, a expectativa é de que o impulso para o uso de energias renováveis não ocorra apenas pela previsão do fim do petróleo e outros combustíveis fósseis, mas por iniciativa de governos preocupados com questões como a das mudanças climáticas.

Biodiversidade
Outro ponto importante nas discussões da Rio+10 foi o que tratou da defesa da biodiversidade, cuja Convenção, firmada na ECO 92, não logrou tanto êxito como a Convenção das Mudanças Climáticas, que, em 1997, firmou o Protocolo de Quioto destinado a combater as emissões de poluentes responsáveis pelo chamado efeito estufa. Embora em Johannesburgo a Convenção da Biodiversidade não tenha ainda obtido o estabelecimento de metas para repartição dos lucros auferidos pelos países desenvolvidos com os produtos advindos dos países detentores dos recursos, ficou estabelecido, como marco de referência para redução da taxa de extinção de animais e plantas, o ano de 2010.

Stela Goldenstein, Secretária do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, relativizou a questão do sucesso ou fracasso da Rio+10, apontando o Brasil como bem representado no evento pela grande delegação, formada por 230 pessoas, que apresentou uma posição coerente, com propostas de consenso, demonstrando que o Brasil é um País viável ambientalmente. Reconhecendo as dificuldades, Stela avalia que houve poucos avanços no Plano de Implementação da Agenda de Compromissos destinados à Sustentabilidade. Representando os municípios dos Países do Mercosul, depois de destacar o relevante papel que esses entes podem cumprir para implementação das ações em prol do desenvolvimento sustentado, a secretária alertou para o que considera “fragilidades brasileiras” nesse contexto. Ela referia-se à “falta de estratégias para a inclusão social e a falta de estratégias para o planejamento urbano” como pontos que merecem cuidados dos atores responsáveis pelas políticas públicas brasileiras.

Setor produtivo
O setor empresarial também promoveu sua avaliação da Conferência de Johannesburgo. Aproveitando a reunião anual do CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentado, na FIESP, em São Paulo, no dia 11 de setembro último, o Presidente executivo da instituição, Fernando Almeida, trouxe informações relativas à participação do empresariado brasileiro nos eventos paralelos à Cúpula da Terra.

Ele ponderou sobre os enormes desafios para se alcançar a sustentabilidade. A erradicação da pobreza e a promoção de mudanças nos padrões de produção e consumo não são resolvidos da noite para o dia. Mas estão no cerne da questão da sustentabilidade, cuja matriz implica o compromisso ético, a transparência, a democracia, o combate firme à corrupção (“as grandes empresas mundiais vão abandonar os países onde o nível de corrupção seja elevado”) e o crescimento dos investimentos privados inversamente proporcional ao dos investimentos estatais.

Fernando Almeida destacou também as boas ações empresariais apresentadas no “Business Day”, evento organizado pelo Business Action for Sustainable Development, produto da união do Conselho Empresarial Mundial (World Business Council for Sustainable Developmente – WBCSD) e da International Chamber of Commerce (ICC), um dos eventos paralelos à Cúpula da Terra, para demonstrar que, diante do cenário de vulnerabilidade socioambiental, a visão de curto prazo, do lucro a qualquer preço, não tem mais chance de sucesso. Segundo ele, 80% das lideranças empresariais em todo o mundo encaram o desenvolvimento sustentado como uma oportunidade e não mais como aumento de despesas.

Longo caminho
Enfim, pelo que foi demonstrado por alguns dos brasileiros que participaram dos eventos oficiais e marginais à Cúpula da Terra, a tarefa de chegar a acordos em que cada país cumpra com sua parte, abra mão de privilégios e de barreiras alfandegárias e responda proporcionalmente pelos estragos que promove no Planeta, não é simples e está longe de ser concluída. Aliás, segundo muitos depoimentos, foi bastante árdua a tarefa para manter e consolidar as conquistas da Agenda 21, firmada no Rio de Janeiro em 1992. Basta verificar que países desenvolvidos como os EUA tentaram rever princípios como o da “responsabilidade comum, mas diferenciada” consagrado na ECO 92, tentando impor o princípio da “responsabilidade igual para todos”, mais confortável para atender aos níveis de exigências a que estão submetidos.

E, embora o Plano de Implementação dos Compromissos da Agenda 21 não tenha ainda uma feição clara, a semente mais uma vez está lançada. No discurso de despedida, o presidente sul africano Thabo Mbeki disse que as Nações Unidas precisam criar mecanismos para garantir que os países façam o que concordaram em fazer em encontros como a Cúpula. Para as ONGs, mesmo desapontadas com os resultados finais do encontro, pediu que estas pressionem pelo cumprimento das diretivas aprovadas.

Enfim, como disse o Ministro do Meio Ambiente do Brasil, José Carlos Carvalho, a tarefa da Conferência era ultrapassar a intenção inócua da simples avaliação do que (não) foi feito até agora e avançar em acordos econômicos e políticos. Durante a realização do evento, o Ministro dava mostras de que o Brasil, além de protagonista em alguns pontos da agenda mundial, também fazia prospeções demonstrando as vantagens comparativas oferecidas pelo País.

Na sua avaliação, a proposta brasileira de energia e os limites de emissão dos gases de efeito estufa, descritos no Protocolo de Quioto, oferecem as bases para um lucrativo mercado ambiental para o Brasil. No caso das energias alternativas, as possibilidades estão nas “Iniciativas do Tipo 2”, como são chamados pela diplomacia os convênios entre governos, empresas e ONG’s para desenvolver projetos para uso de energia limpa e renovável, ou, ainda, nos “Projetos Regionais Voluntários” para uso deste tipo de fontes de energia, inclusos no texto da resolução sobre o assunto, extraída em Johannesburgo. No caso do Protocolo de Quioto, as perspectivas estão no desenvolvimento de projetos de biomassa e florestas, responsáveis pela captação dos excessos de carbono existentes na atmosfera, e sua transformação em cotas de carbono captado ou não emitido, negociadas com países desenvolvidos premidos pelas exigências do Protocolo.

Um exemplo claro desse tipo de iniciativa pôde ser comprovado ainda durante a Conferência Rio + 10, quando os Governos Brasileiro e Alemão firmaram um acordo para produção de 100 mil novos carros a álcool, em substituição ao mesmo número de veículos movidos a gasolina, proporcionando redução de 709 mil toneladas por ano de emissões de dióxido de carbono (principal agente do efeito estufa). O acordo é um claro exemplo de projeto de MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, um dos principais dispositivos previstos no Protocolo de Quioto, onde o governo alemão se beneficiará com a aquisição de créditos de cotas de carbono reduzidas, cumprindo parte de suas metas previstas pelo Protocolo, e o brasileiro com a injeção de recursos, com a difusão de uma tecnologia responsável pela produção de combustível limpo e renovável e com a geração de empregos.

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