Ano II - Número 8
   Fevereiro de 2003
 
 

“A energia mais cara é a energia que falta!”

Não resta dúvida que o “Apagão” teve um efeito benéfico sobre o povo brasileiro, que passou a consumir energia de maneira mais consciente. Outro benefício proveniente da crise de abastecimento foi deixar claro que o País precisa de uma matriz energética diversificada e limpa.

Reeleito deputado esta-dual pelo PPS, o engenheiro Arnaldo Jardim vai dar ênfase na continuidade do trabalho que vem realizando no comando da “Frente Parlamentar pela Energia Limpa e Renovável”. O parlamentar recebeu a reportagem do Ambiente Legal para uma entrevista, entrecortada por inúmeros telefonemas e reuniões, compromissos e viagens, demons-trando a intensa atividade do deputado frente às questões energéticas. Ele falou sobre a crise do “apagão” e sobre o momento atual, em que existe energia sobrando, mas não teve dúvidas de prognosticar que, com o possível crescimento econômico do país, em 2005 estaremos vivendo nova crise se o governo não tomar providências urgentes na adoção de uma matriz energética mais ampla e diversificada. Por isso, Arnaldo Jardim defende não apenas medidas que fortaleçam o fornecimento de energia para dar conta da demanda, como também a adoção de fontes alternativas renováveis e limpas, visto que “os grandes aproveitamentos hidrelétricos em nosso País estão praticamente esgotados”. A seguir o resumo da conversa.

Ambiente Legal - A crise energética mostrou que o Brasil não pode ficar dependente de apenas uma fonte de geração. Quais são os caminhos para não enfrentarmos outra crise?
Arnaldo Jardim - De fato, a crise energética de 2001 foi pedagógica. É preciso reconhecer que é um privilégio para o Brasil contar com este rico potencial hídrico. Contudo, é preciso dizer também que o potencial para os grandes aproveitamentos hidrelétricos está praticamente esgotado. Resta a alternativa das chamadas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). Mas, de qualquer modo, é preciso pensar em modelos alternativos, como o gás natural, a biomassa, a energia eólica e a solar, estas duas últimas em situações bastante peculiares.

AL - Como o senhor avalia o Programa Brasileiro de Termelétricas movidas a gás natural?
Arnaldo Jardim - Na verdade o programa de termelétricas acabou atrasando, muito em função das aprovações dos Estudos de Impactos Ambientais e do Licenciamento Ambiental. Teve, também, o problema de encontrar a equação econômica adequada para a compra do gás da Bolívia, pelo fato de o gás ser cotado em dólar, o que atrapalhou o andamento do programa. Hoje, a situação é de excesso de oferta de energia. A crise trouxe um efeito pedagógico benéfico e as pessoas passaram a economizar energia. A indústria e o comércio promoveram uma reestruturação em suas demandas energéticas. Também houve o aumento da tarifa, ainda em função das decisões governamentais frente à crise, e isso também contribuiu para a redução do consumo, ou seja, hoje existe energia de sobra nos estoques das distribuidoras.

AL - Então o programa de termelétricas está comprometido?
Arnaldo Jardim - Não. Acho que nos períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam comprometidos, tem todo o sentido do mundo utilizar fontes alternativas de energia, inclusive as termelétricas. E tem mais. Com o possível crescimento econômico que, esperamos, virá com o novo governo, é preciso que seja estabelecida já uma matriz energética alternativa. Caso contrário, vamos enfrentar a escassez energética novamente em 2005. E, é como eu sempre digo, a energia mais cara é aquela que falta. Portanto, é preciso planejar para prevenir crises futuras.

AL - O senhor tem sido um defensor da adoção de fontes de energia alternativas, limpas e reno-váveis. Lidera inclusive uma Frente Parlamentar na Assembléia que trata do assunto. Fale sobre isso.
Arnaldo Jardim - A criação da Frente foi proposta diante da constatação que o mundo está cada vez mais consciente que a energia é um bem essencial para o desenvolvimento dos países e para a qualidade de vida dos povos. Ser autosuficiente e exportador de energia é condição fundamental para que um país se mantenha bem posicionado na nova ordem econômica mundial. Mas, não bastará ser produtor de qualquer tipo de energia. As exigências ambientais da sociedade moderna e a curva descendente de produção de petróleo irão privilegiar as energias limpas, seguras e renováveis.

AL - E nesse particular o Brasil pode levar vantagem?
Arnaldo Jardim - Sem dúvida. Veja o caso da cana de açúcar. Informações dão conta que o custo médio do MW de energia gerada pela hidreletricidade está em R$ 30,00 (trinta reais). O MW do gás natural é de R$ 230,00 (duzentos e trinta reais) e o custo médio do MW gerado pelo bagaço de cana é de R$ 70,00 (setenta reais). Além do preço, tem a vantagem de ser uma energia mais limpa e renovável. Também é verdade que as alternativas eólica e solar, que são ambientalmente ótimas, não são competitivas economicamente. O custo médio do MW gerado está na ordem de R$ 200,00 (duzentos reais).

AL - Qual é a porcentagem de energia gerada pela biomassa na matriz energética do País?
Arnaldo Jardim - Representa uns 2%. No Estado de São Paulo está na ordem de 4%. Mas é possível, em pouco tempo, com investimentos, aumentar essa participação rapidamente. Aliás, nós estamos defendendo que em 15 anos o Brasil alcance um patamar de 10% de energia produzida pela biomassa. Para isso é preciso que seja aprovada uma lei voltada para o financiamento de projetos de geração de energia limpa e renovável.

AL - Quando se fala em energia de biomassa a lembrança é a da cana de açúcar. Existem, porém, outras alternativas, não é mesmo?
Arnaldo Jardim - Sim. O Brasil é pródigo em material lenhoso, aparas da indústria de mobiliário, restos da bananicultura e palha de arroz são outras possibilidades importantes.

AL - Durante a Rio+10 houve tratativas relativas à produção de veículos a álcool em um convênio com uma montadora alemã, a Volkswagem e o governo alemão. Esse acordo foi apontado como um dos negócios pertencentes aos chamados Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), previstos pelo Protocolo de Kyoto, uma vez que, com a substituição do combustível fóssil por outro mais limpo e renovável, haverá a redução das emissões dos compostos de carbono. Essa pode ser outra vantagem comparativa para o Brasil, ao adotar uma matriz energética mais limpa e alternativa?
Arnaldo Jardim - A ratificação do Protocolo de Kyoto, em breve, como uma lei mundial, deve ser comemorada por todos nós. Trata-se de um acordo internacional de combate aos gases que provocam o efeito estufa. Para o Brasil, viabilizará uma série de projetos na área ambiental, com o estabelecimento do MDL, que criará possibilidades de geração de divisas com a comercialização de créditos de carbono, que capturados da atmosfera por meio de plantações de cana de açúcar, por exemplo, poderão ser negociados com os países que tem compromissos de redução das emissões de poluentes para a atmosfera. Sobre a questão do álcool combustível lembro que recentemente, durante a II Conferência Internacional sobre a Internacionalização do Álcool Combustível, foi debatido por autoridades mundiais o papel estratégico do álcool combustível brasileiro como fonte de energia renovável nas matrizes energéticas dos países e as ações necessárias para levá-lo à condição de commodity internacional.

AL - Por fim, as energias eólica e solar...
Arnaldo Jardim - O potencial eólico no nordeste brasileiro deve ser aproveitado. Já existem projetos no Ceará, com aporte de recursos financeiros e tecnológicos da Alemanha, que mostram que esta é uma alternativa para ser usada no litoral nordestino. Em São Paulo isso não dá certo. Já quanto à energia solar, esta ainda é cara e não há previsão de que venha ter seus custos baixados. É uma alternativa para ser usada em pequenas comunidades e projetos específicos.

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